Encontrei esse artigo jornalístico, não médico, porém interessante, no site do repórter Sidney Rezende… A data é de agosto de 2007, mas não poderia ser mais atual… vale conferir:
Cássia Kiss é bipolar. Viva a liberdade!
Marina W. | Ciência e Saúde | 04/08/2007 20:00
A capa da revista ¨Quem¨ é a atriz Cássia Kiss declarando: “Tenho bulimia e sou bipolar”. Eu poderia escrever várias coisas a respeito do seu desabafo, mas fiquei pensando: “Como eu gostaria de ler sobre isso antes, como eu queria que fosse como agora: várias pessoas dizendo que têm essa doença”. Porque nos anos 80 e 90 a onda era dançar e suar nas academias e outras coisas alegres. Então ninguém dizia nada, a ponto de eu pensar que existiam apenas duas pessoas com esse transtorno no mundo: eu e Kay Jamison.
Se diz transtorno porque não se conhece exatamente seus meandros para ser chamado de doença. Não havia meios de alguém falar que tinha depressão, tanto que eu me lembro como o ator Carlos Vereza ficou estigmatizado. “Ele é louco”, diziam, e eu pensava “Deixa eu ficar quieta no meu canto”. Com o mundo desolé, alguns começavam a admitir que tinham tido depressão. Abriu-se um espaço. Paralelo ao avanço, Selton Mello prestava um desserviço perguntando aos convidados do seu programa Tarja preta, “Quem você acha que deveria usar tarja preta?”. E o convidado sempre responde: “Todos os políticos!”. Como assim?
Chico Anysio ficou calado e se emocionou. Depois disse: “A ninguém… não sou psiquiatra”. Hoje em dia tento ver com humor coisas antes que me irritavam. Desde que não escondo que tenho uma doença, não estou nem aí. Depois que a dor passa tudo se torna diferente.
A bipolaridade está na moda e, embora seja estranho falar em moda e doença que pode matar numa mesma frase, não é ruim como aparenta. É excelente. Recebo tantos emails sobre esse assunto depois do “Diário…” (jabaculê) e mulheres esclarecidas dizem: eu não sabia que existia um nome para o que eu sinto. Um pastor se apaixonou loucamente por mim quando “eu revelei a ele o que ele tinha”. Foi divertido. O pastor: “Se Nossa Senhora existisse, seria você”. Hehe.
Recebi um torpedo de papel no restaurante de uma mulher que dizia que meu livro foi uma das coisas mais importantes da sua vida. Quem diria que eu poderia de alguma forma ajudar pessoas e que aquele dor seria de alguma maneira válida? Uma moça escreveu no email: “Sou bipolar (Ufa!)”. Creio que foi a primeira vez que ela admitia isto para alguém.
É bom estar sendo discutido porque fica muito mais fácil ter um diagnóstico certo agora que as luzes estão acesas. Fui medicada duas vezes como tendo depressão unipolar e sofria muito mais do que se não tivesse ido ao médico.
Claro que existe um oba oba. Uma vez, no bar, a menina da mesa ao lado falou: “Hoje estou muito bipolar!”. Como assim? Está eufórica? E 70% dos londrinos se dizem bipolares, o que é um número sem pé nem cabeça. Apesar dos equívocos – pessoas que ficam muito tristes e às vezes muito alegres se julgando bipolares, quando na verdade são apenas humanas – é uma sorte descobrir logo, já que a média era 10 anos para se ter o diagnóstico certo.
Quando comecei a escrever o livro não se falava sobre o assunto. E aquela atriz brasileira que mora em Nova York e tem cheiro de cravo foi capa da Revista do Globo “Como saí de uma depressão”. Uma coisa assim. No meio do livro, li uma coluna da Ana Cristina Reis, no caderno Ela: “Vc tem alguma amiga bipolar para me apresentar?”. perguntou um amigo à colunista. Aquilo realmente era inusitado. A cantora Olívia B. foi feliz ao afirmar que muitas pessoas tomam remédios controlados para evitar sentimentos próprios e (necessários) do homem: tristeza, medo, angústia. Então alerta. Acho que as tarjas pretas agora são aceitáveis porque o momento não é pra ficar rindo à toa, basta olhar em volta. O mundo está preocupado, os ursos estão se afogando.
Cássia Kiss diz na entrevista que, para ela, não esconder que é bipolar foi “transformador”; pra mim também. É uma doença bem grave, porém tratável. Não tenha vergonha do que você é.
Eu respeito muito o Roberto Carlos, que não pareceu estar preocupado com preconceito hora nenhuma. Assim que descobriu o que tinha, lendo o depoimento de Luciana Vendramini no jornal, não só revelou na TV com faz questão de manter seu público informado: “Estou cantando Negro Gato, sinal de que o tratamento está dando certo, hehe”. Rei.
Link do Artigo: http://www.sidneyrezende.com/noticia/6364+cassia+kiss+e+bipolar+viva+a+liberdade
